DE TOMAZ CABREIRA
Índice
Fotografia dos Alunos que realizaram este trabalho, na Área-Escola de 1995
1
- Notas Biográficas2
- Carreira Académica3
- Pensamento e Carreira Política4
- Obra publicada5
- "O Algarve Económico"6
- ConclusãoVoltar à Página inicial da Escola Secundária de Tomás Cabreira
É do conhecimento de todos os habitantes de Faro que existe nesta cidade uma escola secundária de nome Tomás Cabreira. Mas será que sabemos quem foi o homem que esteve por detrás deste nome? Que vida terá tido? Quais as suas ideias? Como sentiu os problemas do seu tempo? Que importância terá tido para o Algarve? A tais perguntas verificamos que poucas eram as pessoas nesta escola e mesmo na cidade que sabiam dar resposta.
Deste modo, foi unânime a escolha deste tema, para que não só a escola mas toda a comunidade envolvente pudessem ficar a conhecer a vida e a obra de um algarvio que dá pelo nome de Tomaz António da Guarda Cabreira.
Com uma vida tão rica, um curriculum tão invulgar, uma carreira militar, académica e política das mais importantes do seu tempo, injusto seria que o silêncio sobre ele perdurasse. Tendo sido Ministro das Finanças, contando cerca de dezassete livros publicados, foi um dos algarvios que mais se notabilizou, permanecendo contudo esquecido durante anos. Porquê? Será que a leitura atenta da sua obra, " O Algarve Económico ", dá resposta a esta questão?
O facto de Tomaz Cabreira ter sido um regionalista convicto, amante da sua terra e inclusivamente ter defendido por escrito a autonomia administrativa do Algarve, encerra ideias que, por não agradarem ao Estado Novo, podem estar na origem do esquecimento da obra e do pensamento deste grande algarvio.
Sensibilizar toda a comunidade para a obra e para a vida do patrono da nossa escola é o objectivo que nos propomos ao elaborar este trabalho.
Notas Biográficas
Tomaz António da Guarda Cabreira nasceu às duas horas do dia 23 de Janeiro de 1865, na casa da antiga Rua da Misericórdia, actualmente denominada Rua da Galeria, na freguesia de Santa Maria, em Tavira.
Foi neto do ilustre Marechal de Campo Tomaz António da Guarda Cabreira, um dos mais notáveis oficiais da causa Miguelista, posto a que foi promovido por distinção, tendo sido ainda agraciado com os títulos de Conde de Lagos e Visconde do Vale da Mata. Este heróico e nobilíssimo Marechal acabou por ser assassinado na cadeia da cidade de Faro.
Seu pai, Tomaz António da Guarda Cabreira, era natural de Tavira, representante da família Cabreira e senhor do Morgado do Patarinho. General da Brigada, foi condecorado com a Medalha de Valor Militar e, foi ainda Cavaleiro da Ordem de S. Bento de Aviz; foi-lhe atribuída ainda a Medalha de Prata de comportamento exemplar.
Casou, a 6 de Janeiro de 1864 com D. Francisca Emília Pereira da Silva, natural de Ponta Delgada. Veio a falecer em Tavira a 10 de Novembro de 1886, onde gozava de grande prestígio e profunda estima entre todas as classes sociais desta cidade. Desta união nasceram dois filhos, António Tomaz da Guarda Cabreira de Faria e Alvelos Drago da Ponte e Tomaz António da Guarda Cabreira.
Tomaz Cabreira, o mais velho, embora não tenha casado, teve um filho único, falecido em 9 de Janeiro de 1911, com apenas dezanove anos de idade.
Algarvio apaixonado, veio a morrer na sua terra, Tavira, a 4 de Dezembro de 1918, vítima de doença e apenas com 53 anos de idade. Após a morte, foram-lhe reconhecidos valor e mérito, sendo então homenageado, não só pelo seu carácter e inteligência, mas também pelos serviços prestados ao seu país.
Carreira Académica
A sua personalidade multifacetada revela-se sobretudo nas diversas actividades e cargos que desempenhou ao longo da sua vida. Extensa é a lista dos atributos que referenciam os aspectos mais marcantes da sua vida e melhor o definem como eminente homem da ciência, parlamentar e notável professor catedrático, além de autor de importante obra publicada e distinto oficial do exército.
Já feito o exame de instrução primária, em 1877, entrou para a Escola Nacional, então instalada no antigo Palácio de Pombal, à Rua Formosa, transitando a seguir para o Liceu, onde conclui os preparatórios em quatro anos.
Assentou praça no Regimento de Infantaria a 14 de Setembro de 1881, matriculando-se em 25 de Outubro na Escola do Exército.
Foi promovido a Alferes graduado, em 22 de Julho de 1885; a Alferes, em 15 de Julho de 1887; a Tenente, em 30 de Dezembro de 1893; a Capitão, em 1 de Agosto de 1903; a Major, em 24 de Agosto de 1912; a Tenente Coronel, em 12 de Fevereiro de 1916 e a Coronel, em 27 de Abril de 1918.
Quando faleceu, estava, aproximadamente, a um quinto da escala para General, posto que atingiria provavelmente em 1921.
Em 1883, matriculou-se no 1º Ano da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, não podendo prosseguir devido a ter optado por dar continuidade à sua Carreira Militar.
No entanto, em 26 de Outubro de 1886, entrou para a Escola Politécnica e fez o respectivo Curso Geral, com excepção da disciplina de Geometria Descritiva, datando de 9 de Outubro de 1891 o seu último exame.
Alcançou o 1º prémio pecuniário e louvor, respectivamente, nas cadeiras de Química Mineral e de Economia Política.
Em 2 de Novembro de 1891, voltou à Escola do Exército, onde, em 28 de Outubro de 1893 se habilitou com a carta de Engenheiro Civil. Depois de ter prestado brilhantes provas públicas, foi nomeado lente substituto provisório das cadeiras de Química Mineral e de Química Orgânica, na Escola Politécnica, actual faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Em Julho de 1896, o Instituto de Coimbra concedeu-lhe o título de Sócio correspondente.
Em 26 de Maio de 1898, é nomeado, definitivamente, lente da Escola Politécnica. Em 26 de Junho de 1903, recebe a nomeação de Vogal da Comissão de Explosivos. Em 11 de Abril de 1907, é declarado Vogal fundador da Academia de Ciências de Portugal, na qual desempenhou o cargo de Segundo Secretário, desde 1907 até à data do seu falecimento.
Em 1 de Agosto de 1916, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa conferiu-lhe o grau de Doutor, nos termos da lei de 19 de Junho do mesmo ano.
De acordo com o novo estatuto Universitário, de 9 de Julho de 1918, foi promovido a professor ordinário na mesma faculdade.
Em 1907 fundou a Universidade Popular de Lisboa, destinada a ministrar, por via de prelecções ilustradas com projecções luminosas, diversos assuntos de manifesta utilidade pública.
Todo este saber foi, sem dúvida, enriquecido pelas muitas viagens que fez a Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Holanda, Áustria e Hungria, o que comprova o facto de dominar perfeitamente as línguas espanhola, francesa, italiana, inglesa e alemã.
As suas aptidões revelam-se também nos estudos que fez, quer no campo da Química quer no domínio da Economia Política.
É, no entanto, por vocação e especialmente por uma imensa dedicação, que segue o magistério.
Talvez por isso seja considerado, no seu tempo, como professor exemplar, pelas 18 gerações de alunos que leccionou.
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Pensamento e Carreira Política
Tomaz Cabreira foi, sem dúvida alguma, um dos maiores estadistas que até hoje apareceu dentro da República; prova-o o conjunto de aptidões que nenhum outro reuniu ainda e prova-o documentalmente, a sua obra, absolutamente sã e isenta de mistificação e artifícios, sendo um verdadeiro padrão de patriotismo, de talento e de saber.
Muito cedo se afirma como um convicto republicano de ideias avançadas, que discursava em comícios e realizava conferências e as convicções políticas levaram-no muito cedo à condenação dos erros da monarquia.
Em 1887 é tido por republicano da extrema esquerda. Acredita que uma república bem avançada, roçando o socialismo, com todos os poderes no Parlamento e em que a liberdade quase absorvesse a autoridade, transformaria Portugal num país eleito.
Em 1894 foi proposto para Deputado Republicano ao parlamento pelo Círculo de Faro, tendo obtido uma votação relativamente importante, dada a má vontade que havia contra a apregoada Causa Republicana. A sua eleição é, sem dúvida, consequência da sua intervenção nas comissões políticas no Algarve. No entanto, a sua entrada no Parlamento valeu-lhe um destacamento para Trás-os-Montes por parte da hierarquia militar.
Como deputado, estudou e produziu uma extensa e profunda obra que apresentou às Câmaras Legislativas e participou activamente nos projectos e proposta de lei que, a seu ver, interessavam à vida económica e financeira do país. O facto de entender que o advento da República devia ser precedido de uma atmosfera de ideias construtivas, leva-o a fundar o Grupo Republicano de Estudos Sociais.
Em 1 de Novembro de 1908, foi eleito Vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Por ter exercido esse simples direito cívico, foi perseguido em termos militares, mas sentiu uma calorosa simpatia e solidariedade do povo republicano.
Em 17 de Julho de 1911, recebeu o diploma de Deputado à Assembleia Nacional Constituinte.
Em 23 de Agosto de 1912, é eleito Senador da República.
Em 8 de Setembro de 1913, é nomeado vogal da comissão incumbida de proceder ao estudo do local apropriado para o porto franco de Lisboa e, nos termos da lei respectiva, elaborar os projectos de obras necessárias.
Em 9 de Fevereiro de 1914, é nomeado Ministro das Finanças, cargo que exerceu até 22 de Junho e donde foi afastado, a seu ver, por ser incómodo a alguns correligionários seus. Isto leva-o a demitir-se do Partido Democrático.
Quando da Revolução de 14 de Maio, Tomaz Cabreira foi chamado para Ministro do Governo de José de Castro, tarefa que não chegou a exercer.
Embora filiado no partido democrático desde a sua adolescência, fazia questão de afirmar que, enquanto Ministro, não o era de qualquer partido mas da República.
Sendo um homem independente, justo e modesto, não se aproveitou da política nem lhe solicitou favores e o facto de conviver com príncipes, aristocratas, banqueiros e militares nunca o impediu de formar as suas ideias republicanas e de defender os mais desprotegidos.
Se a sua actividade como político lhe granjeou algumas inimizades, também lhe gerou calorosas e inegáveis demonstrações públicas de afecto, reconhecimento e admiração.
Depois de abandonar o partido e a política em 1914, continuou a lutar contra a inércia, a ignorância e a estupidez, criando a União da Agricultura, Comércio e Indústria, da qual foi eleito Vice-Presidente, assumindo a Presidência nos últimos anos.
A partir deste período da sua vida, desencantado e desiludido, o seu pensamento político vai evoluir no sentido conservador e atingir a extrema direita da Democracia.
Tomaz Cabreira iniciou-se na Maçonaria muito novo, não por espírito sectário ou anti-religioso, mas por preocupações políticas, pois o carácter secreto das "lojas" prestava-se à discussão das ideias republicanas e à execução de trabalhos de maior responsabilidade.
Acreditava profundamente em Deus e considerava como dever supremo servir a Pátria e a isso dedicou a sua vida com correcção, coerência e equilíbrio e, segundo ele, sob a égide de Deus.
Espírito cristão, o seu culto pela Justiça e pelo sentido de Honra levam-no a defender algumas das regalias da Igreja assim como algumas Ordens Nobiliárquicas.
Obra Publicada
A sua obra de escritor completou a obra de estadista.
Tomaz Cabreira iniciou-se como jornalista, escrevendo crónicas políticas que, mais tarde, dão lugar a artigos literários e científicos, tendo ocupado lugar de destaque na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa. Defensor acérrimo das garantias conquistadas pelo esforço progressivo dos povos, destaca entre elas a liberdade de Imprensa, sendo sua convicção que os eventuais abusos serão sempre denunciados pela opinião pública como uma ofensa à verdade e à justiça.
Da análise das obras que Tomaz Cabreira nos legou, há que realçar a extensa variedade de temas que abordou, embora os de caracter económico e financeiro sejam sem dúvida os principais. Assim, escreveu sobre o ensino, comércio, problemas tributários, história, química e, curiosamente, dedicou também uma parte da sua obra à pintura.
O primeiro livro publicado data de 1896 "Princípios de Estereoquímica" e o último, com publicação póstuma, "A Composição da Linguagem de alguns Povos Pré- Históricos".
Pela sua importância, iremos abordar, noutro capítulo deste trabalho e com mais pormenor, "O Algarve Económico", onde Cabreira mostra a sua faceta de algarvio convicto, defensor intransigente da regionalização, provando nessa obra, que o Algarve tinha todas as potencialidades para ser a província mais rica de Portugal. Por este motivo, chegou ao ponto de defender uma completa autonomia administrativa.
Em lista despretensiosa, assinalam-se, a seguir, os títulos das obras que Tomaz Cabreira publicou.
Do autor
- Química
"Princípios de Estereoquímica", 1896
- Pintura
"Velasquez é um Pintor Português", 1908
- Fiscalidade
"A Contribuição Predial", 1912
"O Problema Tributário Português", (2 volumes) 1912
- Comércio e Indústria
"Crédito Comercial e Industrial", 1915
- Ensino
"Posto Agrário e Ensino Móvel", 1915
"A Escola Primária Agrícola", 1915
- Finanças
"O Problema Financeiro e a sua Solução", 1912
"O Problema Bancário Português", 1915
"A Questão Corticeira", 1915
"Tarifas Ferroviárias", 1915
"Zonas Turísticas", 1915
"A Defesa Económica de Portugal", 1917
"O Algarve Económico", 1918
"A Política Agrícola Nacional", 1920
- Outros
"A Composição da Linguagem de alguns Povos Pré-Históricos", 1923
"O Algarve Económico"
Tomaz Cabreira nutria um profundo afecto pelo Algarve. O sol, o mar, a paisagem e o casario branco comoviam o seu temperamento de artista. Os heróicos feitos desse antigo reino, na derrota dos árabes e na conquista dos mares, impressionavam o seu espírito patriota. Tal afecto foi concretizado nesses dois monumentos de acção e de estudo que são: O Congresso Regional do Algarve e "O Algarve Económico".
"O Algarve Económico" é a monografia mais completa que se tem escrito sobre qualquer região. Assim, estuda profunda e detalhadamente todos os elementos constitutivos do Algarve e, em especial, dos diversos ramos da sua riqueza, desde as fontes de onde provêm até ao modo técnico e prático de as desenvolver, em ordem a produzir o máximo rendimento.
O autor tentou fazer um estudo, o mais abrangente possível, dos recursos e potencialidades da economia Algarvia, através da análise dos três sectores da actividade: primário, secundário e terciário.
No sector primário, debruça-se sobre a agricultura, a pesca e o sal; no sector secundário, analisa em pormenor a indústria algarvia; e no sector terciário, escreve sobre os transportes, comércio, turismo e finanças.
Tomaz Cabreira começa por fazer uma descrição pormenorizada da topografia e do clima do Algarve, assinalando serras, rios e ribeiras, assim como as zonas de sapais, valas, esteiros, canais e a própria reserva da Ria Formosa, fazendo notar os inúmeros cursos de água, alguns navegáveis, que caracterizam esta região.
Na costa, são assinalados os cabos, os faróis e os portos. A linha férrea e os ramais merecem menção. Quanto ao clima, estudado em quadros comparativos de ventos, chuvas e temperaturas, é definido como característicamente mediterrânico.
O clima ameno, a proximidade do mar e a fertilidade do solo são talvez os responsáveis pela fixação de povos pré-históricos que deixam vestígios por toda a região desde o século III antes de Cristo. Instrumentos de pedra, dólmenes, túmulos e ruínas de cidades são restos deixados por povos que habitaram esta região, como os romanos, os bárbaros no século V, os árabes no século VIII e finalmente os portugueses a partir do século XII.
O estudo demográfico do Algarve mostra ter sido sempre muito povoado e com tendência para aumentar. O povo tem características físicas bem definidas, sendo visto pelo autor como alegre, muito trabalhador, económico e com muitos filhos. A longevidade, a pouca emigração e o elevado nível de analfabetismo foram traços que caracterizaram a população residente durante muitas décadas.
A vida agrícola divide-se em propriedade rústica, com pouca água, em que as figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras, azinheiras e sobreiros têm lugar de destaque, e as culturas regadas, com árvores frutíferas, pomares e legumes frescos de boa qualidade. Nos casais, prédios agrícolas com exploração de sequeiro ( trigo, cevada e aveia, vinhas e olivais ) rodeados de pinheiros e mato, faz-se exploração pecuária de pouca importância. A falta de pastos, a indiferença dos habitantes e o receio de que os rebanhos destruam as culturas devem ser algumas das razões que explicam a incapacidade da província no que diz respeito a uma intensa exploração pecuária.
Nas hortas cultiva-se, com água de rega, batata doce, feijão, couves, abóbora, melancia e melão. O gado muar caracteriza esta região por ser mais sóbrio, mais rústico e ter maior longevidade, na opinião do autor.
O desenvolvimento do associativismo e a formação de cooperativas, contrariando a divisão da terra em pequenas propriedades e o individualismo dos rurais algarvios, são já preconizados pelo autor como o caminho a seguir no desenvolvimento agrícola e tendo em vista a exportação. A construção de diques e barragens como medida de recuperação dos sapais e salgados e de combate à infiltração das águas do mar deve, segundo Tomaz Cabreira, ser um objectivo a atingir.
Quanto à pesca, a indústria tradicional, o autor cita as espécies de peixe mais comuns nesta zona, com primazia para a sardinha, atum, carapau, pargo, salmonete, linguado e cavala, assim como para o marisco, com amêijoas e ostras de qualidade superior. As técnicas de pesca utilizadas são descritas com quadros comparativos de produtividade e são citadas as mais comuns: armações, tresmalhos, traineiras, aparelhos de anzol e covos.
As salinas, bem como a técnica de extracção de sal, vinda de tempos remotos com os seus tabuleiros e eiras, que se distribuem por algumas zonas da costa algarvia, devem, na opinião do autor, ser melhoradas, quer quanto à técnica utilizada quer quanto à produtividade conseguida.
No início do séc. XX, a indústria algarvia era bastante diversificada. Com um subsolo pobre, era no entanto rica em pedreiras, cantarias, mármores, cal branca e preta, barros e areias finas.
A falta de madeiras criou uma indústria de construção naval de pouca importância e carências grandes ao nível da construção civil.
A indústria da conservação de peixe é feita nesta zona por secagem, ( ovas e moxama ), por salga ( sardinha ) e por conserva ( sardinha, ovas, chicharro e atum ). É no entanto esta última, a conserva de peixe, com fábricas espalhadas por toda a costa algarvia e empregando 56 milhares de operários, que tem um papel predominante na indústria desta região.
As indústrias de frutos secos, moagem, cortiça, doçaria, tecidos e cordoaria, se bem que com importância local, não podem ser consideradas com peso na indústria algarvia.
No sector terciário, Tomaz Cabreira vai debruçar-se sobre os transportes, focando a importância da rede viária em desenvolvimento, com as suas estradas nacionais, distritais e de serviço assim como o número de veículos, carros de bois, muares e automóveis existentes.
No que diz respeito à via férrea, é assinalado o grande movimento de passageiros e transporte de mercadorias que o autor considera de grande importância para a região.
Quanto à via marítima, que é afinal a principal via de exportação, é analisada nas suas diversas vertentes: portos existentes, de abrigo, de pesca e marítimos e seu movimento; número de marinheiros e de navios de vela e embarcações em geral.
O autor referencia ainda as comunicações feitas por via postal, com um estudo do movimento da correspondência e das estações postais já existentes.
O comércio Algarvio ocupava cerca de dez mil pessoas; e a maior parte dos comerciantes dedicava-se ao comércio de produtos alimentares.
Os produtos mais importantes para a exportação são as alfarrobas, amêndoas, batatas e figos secos; a sardinha salgada ou em conserva e ainda vinho de pasto. O Algarve exporta mais do que importa pelo que, é uma região com balança comercial favorável e com vida independente, o que lhe garante uma verdadeira autonomia económica, segundo a opinião do autor.
Tomaz Cabreira dá grande importância ao comércio externo e incentiva o seu desenvolvimento, principalmente com Inglaterra, através duma melhoria da embalagem e acondicionamento de cada tipo de produto. Para isso, propõe uma selecção muito criteriosa da qualidade e do tamanho dos produtos a exportar, e ainda a alteração das práticas de propaganda, criando estabilidade nos prazos e nos custos.
Outra forma de desenvolver o Algarve em termos comerciais é, segundo ele, através do estabelecimento de novas indústrias nesta província, tais como: a cultura da alcaparra, da batata doce, da soja e do medronheiro; apicultura; piscicultura; ostreicultura e ainda floricultura que forneceria matéria prima para a indústria da perfumaria
Um outro elemento decisivo para esta região, era, para Tomaz Cabreira, o desenvolvimento do Turismo. Segundo ele, o Algarve era um bom centro turístico, pelo seu clima, paisagens e praias, mas deveria desenvolver as vias de comunicação e de acesso, aspectos fundamentais para uma zona que se diz turística. A instalação de modernos hotéis, uma higiene e arborização generalizada e ainda a catalogação, como monumentos nacionais, das ruínas e edifícios com interesse histórico ou científico, eram elementos que segundo Tomaz Cabreira valorizariam o turismo de qualquer região.
As excelentes condições climatéricas fazem desta região uma zona de eleição para o tratamento de inúmeras doenças, da tuberculose ao raquitismo, do reumatismo às doenças de foro psíquico. A instalação de estações de cura e repouso, e sanatórios bem apetrechados, deveria ser incentivada para bem da região e dos doentes nela interessados.
Uma pequena referência é feita ao ensino do Algarve. Fazendo notar mais uma vez um elevado número de analfabetos, cita apenas a Escola dos marinheiros da Armada de Faro, a Escola Industrial de Faro e a Escola Industrial de Lagos. É feita por Tomaz Cabreira a apologia das velhas indústrias locais: rendas de bilros, trabalhos de empreita, tapeçaria, doces, trabalhos em figo, ferragens que deveriam, segundo ele, ser implantadas nas escolas para que não se perdessem. Uma escola móvel do ensino industrial, mas com uma secção comercial, deveria deslocar-se por toda esta região, dando esclarecimentos e fornecendo novas técnicas, quer aos rurais quer aos pequenos industriais, delas carentes. Tomaz Cabreira defende ainda para a região, a criação de escolas agrícolas e de pescas.
No sector das finanças, o autor faz um estudo de pormenor das finanças individuais, municipais e da província. Aborda, duma forma quase exaustiva, os movimentos e depósitos por zona, os juros para cada tipo de conta, o movimento de letras, hipotecas e vales nas diferentes dependências bancárias da região.
" As receitas, no Algarve, referidas no orçamento de 1913-14, foram no total de 1.391.085 contos sendo as despesas de 527.741 contos, e o saldo subsequente de 863.344 contos. Este saldo mostra que o Algarve paga muito mais ao Estado do que dele recebe, por consequência, tem todas as condições para possuir uma completa autonomia administrativa..."
Tanto a balança comercial como as balanças das finanças industriais ou estaduais dão, ao velho reino do Algarve, todas as características de uma região que pode contar com os seus próprios recursos para ter uma vida mais larga e intensa.
" Com o seu clima dulcíssimo que permite uma intensa indústria de turismo, sanatórios e estações de repouso; com o seu terreno formado de faixas de variada constituição onde vegetam os soutos de castanheiros, os sobreiros, as azinheiras, as alfarrobeiras, as figueiras e amendoeiras; com os seus pomares e hortas do Litoral que fornecem uma extrema abundância de primores; com a sua costa extremamente recortada onde se encontram excelentes praias e bons portos, com o seu mar de uma extraordinária riqueza piscícola; com a sua indústria florescente; com a sua população boa, alegre e trabalhadora, o Algarve pode ter um futuro brilhantíssimo e ser a região mais rica de Portugal. Para isso é preciso que todos os Algarvios sem distinção de qualidade, de riqueza, de opiniões políticas e religiosas, cooperem no engrandecimento da sua pátria; trabalhando cada um o melhor que puder, na sua indústria ou ocupação..."
" O futuro e o engrandecimento do Algarve estão nas mãos dos filhos desta abençoada terra e para que ela seja rica e próspera é que foi escrito este livro, por um dos algarvios mais humildes, mas também dos mais fanáticos pela sua terra natal. "
Março a Agosto 1917
Conclusão
Ao encerrar este apontamento sobre a personalidade e a obra de Tomaz Cabreira, parece oportuno assinalar mais uma vez a sua têmpera humana que lhe permite abranger um leque diversificado de empenhos, com especial incidência na vida militar, na intervenção política e no domínio do ensino.Homem de acção, entregou-se com denodado vigor a tudo o que empreendeu, motivado interiormente e certo da justeza das causas que abraçou.
Como tal, gostava de ver o seu esforço compensado, na realização concreta de cada iniciativa e na efectivação das alterações daí decorrentes. Nem sempre lhe foi dado saborear essa sensação. O facto pesou-lhe em demasia e foi acumulando marcas difíceis de gerir. O homem forte e destemido não era insensível, o que também representa qualidade e dimensão humanas.
Ninguém estranhará que, no âmbito das realidades económicas e da sua evolução histórica, em parte imprevisível, algumas das suas achegas sejam perfeitamente datadas e, por conseguinte, mostrem os matizes e limitações decorrentes do estado da ciência da época.
Em contraste, é de toda a justiça sublinhar o acerto de Tomaz Cabreira relativamente às potencialidades da região do Algarve no sector do turismo. Independentemente dos desvarios posteriores, circunscritos a este ou aquele lugar, que lhe não poderão ser imputados, a história recente só lhe veio dar razão e abre para horizontes de realização ainda não esgotados.
Por fim, importa assinalar a sua premonitória intervenção no domínio do ensino técnico e profissional. Tomaz Cabreira teve a noção exacta da premência deste tipo de ensino numa sociedade que se preparava para adoptar os ritmos e valências duma sociedade moderna. Sentiu-a como necessidade indesmentível, investiu na elaboração de projectos e bateu-se por eles nas instâncias parlamentares, com o intuito de lhe assegurar estatuto legal apropriado e viabilidade prática no terreno.
Nunca será demais sublinhar, a propósito deste particular, a sua visão de precursor e o zelo de pioneiro.
Reconhecido o mérito do político, do professor, do militar e do homem que foi Tomaz António da Guarda Cabreira, e tendo em atenção o sentir de todos os algarvios, o Conselho Escolar da Escola Comercial de Faro, solicitou que este fosse designado seu patrono .
Assim o determinou o Governo da República através da portaria nº 2.576 de 17/1/1921, como justa homenagem á sua vida e obra; e é na mesma linha de coerência e pela portaria nº 608/79, de 22 de Novembro (D.R., I série, nº 270, de 22/11/79), que a " Escola Industrial e Comercial de Faro ", passou a designar-se por " Escola Secundária de Tomás Cabreira ", homenagem encadeada que muito honra a comunidade educativa actual.
-"Enciclopédia Luso-Brasileira"
-"Centenário do General Tomaz Cabreira"- 1922, António Cabreira
-"Posto Agrário e Ensino Móvel"- 1915, Tomaz Cabreira
-"Tomáz Cabreira através da vida e através da morte"- 1920, António Cabreira
-"O Algarve Económico"- 1918, Tomaz Cabreira
-"A Política Agrícola Nacional"- 1920, Tomaz Cabreira
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