2001/2002
(Histórico: 2000/2001)

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Corpus
(Poemas 51 a 100)

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Agora que morreste Mãe

Agora que morreste Mãe

E só em mim te tenho

Sou mais que o meu tamanho

Porque sou tu também

Tuas mãos afagam as minhas mãos

De quem são estes gestos esta pele?

Nunca me deste irmãos

Só contigo reparto o meu farnel

De quotidianos fardos e alegrias

Breves e desta brasa em chaga

Que é a tua ausência nos meus dias

Órfãos mas sempre ao colo desta mágoa

De não te ter de te ter sido esquiva

De não te ter nunca aberto as portas

Do meu ser de nunca te ter dado vivas

O que hoje já só são carícias mortas

     Teresa Rita Lopes, Cicatriz

 

Dia a dia

Dia

a

dia

noite

a

noite

pedra

a

pedra

palha

a

palha

tronco

a

tronco

cuspo

a

cuspo

gesto

a

gesto

passo

a

passo

flor

a

flor

se faz um ninho

um caminho

um amor

      Teresa Rita Lopes, Cicatriz

 

Junto a um muro velho

Junto a um muro velho

A uma casa ruída

A velha amendoeira diz que não

À morte

E fica

De repente

Menina e noiva

Ao mesmo tempo.

O vento ri-se dela

Arranca-lhe as pétalas

- Mas são tantas que não se nota -

Escarnece-a:

- "És uma velha louca de véu e grinalda!"-

Para enxotar os insultos machistas do velho

Vento

Acudo-lhe com estes versos:

- "Não ligues! É inveja!

Estás tão linda assim de noiva, avozinha!"

                                Teresa Rita Lopes, Caminhos de Alcoutim

 

Quando te tinha

            Quando te tinha

            Mãe

            Não sabia

            Que um dia

            Havia

            De te perder

            Nem pensava

            Sequer

            Que podia

            Não te ter

            Não parava

            Para te saborear

            Para te saber

            Tão precisa

            À minha vida

            Tão preciosa

            Não gozava

            A alegria

            De te saber

            Mãe

            Viva

                               Teresa Rita Lopes, Cicatriz

 

Cantiga

La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.

Já não se escutam rumores:

A noite não tarda a vir.

Vamos embalar as flores?

As flores querem dormir!...

La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.

Cravos e lírios e rosas

Ao vento brando de outono,

Cravos e lírios e rosas

Vão-se fechando

De sono...

La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.

Vamos embalar as flores?

As flores querem dormir!...

Já não se escutam rumores:

E a noite não tarda a vir!

La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.

      Cecília Meireles (Brasil), Obras Completas

 

 A Máscara

 Parei

Espreitei

Entrei

Comprei

Saí

Subi

Abri

Sorri

Peguei

Coloquei

Atei

Ajeitei

Desci

Apareci

Rugi

E ri

Um leão

Que aflição!

Mas não...

É o João!

      Maria Cândida Mendonça, O Livro do Faz-de-Conta

 

A dança do B

 Um dia, o boi, o burro, o besouro,

O borrego, o búfalo e a borboleta

Repararam que os seus nomes

Começavam todos por b.

Disseram ao mesmo tempo:

Que bonito!

O bacalhau, o berbigão, o besugo

E o búzio, lá no mar,

Repararam que os seus nomes

Também começavam por b.

Disseram todos assim:

Que bonito!

Veio logo uma baleia de longe,

A gritar. Esperem,

Esperem aí por mim!

      Maria Alberta Menéres, Um Peixe no Ar

 

Dúvida

O carvão é preto.

Quando arde é vermelho.

Qual é afinal

A cor do carvão?

Minha mãe, de noite

Não entendo nada:

Será que as cores nascem

Só de madrugada?

Minha mãe, quem sabe

Se a voz do amarelo

Não é doce apenas

Na imaginação?

       Maria Alberta Menéres, Conversa com Versos

 

Comigo me desavim

Comigo me desavim

Vejo-m'em grande perigo

Nam posso viver comigo

Nem posso fugir de mim.

Antes qu'este mal tevesse,

De outra gente fugia,

Agora já fugiria

De mim, se de mim podesse.

Que cabo espero ou que fim

Deste cuidado que sigo,

Pois trago a mim comigo

Tamanho imigo de mim?

      Francisco Sá de Miranda (séc. XV), Cancioneiro Geral

 

Comigo me desavim

Comigo me desavim:

Vejo-me em grande perigo!

Não posso viver comigo

Nem posso fugir de mim!

Antes que este mal tivesse

Da outra gente fugia:

Agora já fugiria

De mim, se de mim pudesse!

Que cabo espero, ou que fim

Deste cuidado, que sigo

Pois trago a mim comigo

Tamanho inimigo em mim!

       Francisco Sá de Miranda (séc. XV), Cancioneiro Geral

 

Conceito pequenino

A tudo se empresta aroma.

De tudo aroma se extrai.

O trigo que o homem sonha

Precede, vivo, o trigal.

Nasce o trigo e cresce o pão

Que no sonho se transforma.

Só com raízes no chão

Tem asas livres o homem.

       António Luís Moita, Cidade sem Tempo

 

A palavra impossível

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim

A vida que não se troca por palavras.

Deram-mo para eu guardar dentro de mim

As vozes que só em mim são verdadeiras.

Deram-mo para eu guardar dentro de mim

A impossível palavra da verdade.

 

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,

Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,

Para eu guardar dentro de mim,

Para eu ignorar dentro de mim

A única palavra sem disfarce -

A Palavra que nunca se profere.

      Adolfo Casais Monteiro, Noite Aberta aos Quatro Ventos

 

Pingas de chuva

Caem,

Gordas, sonoras,

Monótonas pingas de chuva,

- Espaçadas -

E indolentes

Vão marcando uma toada:

Ping pang - ping pang,

As pingas

De chuva do Outono pardo.

Espapaçada

A terra mole absorve

As vagas de chuva densa

Que lenta vai caindo,

Em pingas grossas, sonoras.

E ao cair,

A chuva bate o compasso

Com o som dum contrabasso...

Ping...

Pang...

Ping...

Pang…

       Adolfo Casais Monteiro, Poemas do Tempo Incerto

 

 

Garota de Ipanema

Olha que coisa mais linda

Mais cheia de graça

É ela, a menina

Que vem e que passa

Num doce balanço

Caminho do mar...

Moça do corpo dourado

Do sol de Ipanema

O seu balançado

É mais que um poema

É a coisa mais linda

Que eu já vi passar.

 

Ah, por que estou tão sozinho

Ah, por que tudo é tão triste

Ah, a beleza existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha...

 

Ah, se ela soubesse

Que quando ela passa

O mundo sorrindo

Se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor...

       Vinicius de Moraes (Brasil), Antologia Poética

  

Peru

 Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro Peru!

 

O Peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-Tico riu-se tanto

Que morreu de congestão.

 

O Peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão.

 

O Peru se viu um dia

Nas águas do ribeirão

Foi-se olhando e dizendo

Que beleza de pavão!

 

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro Peru!                 

      Vinicius de Moraes, Antologia Poética

 

Litania para este Natal (1967)

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Num sótão num porão numa cave inundada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Dentro de um foguetão reduzido a sucata

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Num presépio de lama e de sangue e de cisco

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Para ter amanhã a suspeita que existe

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Vê-lo-emos depois de chicote no templo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

E anda já um terror no látego do vento

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Para nos vir pedir contas do nosso tempo

       David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso

 

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,

Numa gruta, no bojo de um navio,

Num presépio, num prédio, num presídio,

No prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.

Entremos, e depressa, em qualquer sítio,

Porque esta noite chama-se Dezembro,

Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,

Duzentos mil, doze milhões de nada.

Procuremos o rastro de uma casa,

A cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.

De mãos dadas talvez o fogo nasça,

Talvez seja Natal e não Dezembro,

Talvez universal a consoada.

      David Mourão-Ferreira, Cancioneiro do Natal

  

Poesia de amor

Vieram as aves negras em teu nome,

Secas folhas de plátano e de tília...

Amargamente, a fonte segredou-me

Tudo quanto eu sabia

Da sorte de Marília;

E que Dirceu

Poderei ser eu

- Tão infeliz! - nesta prisão sombria.

Ausente embora, continuo

A endereçar-te mil endechas.

Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,

Pela canção doentia

Coloração das minhas queixas.

Bárbara escrava?

Que me importava?

Além do amor, o meu amor quer melodia.

Cantei às flores do pinho, verde e vivo;

Cantei nas margens verdes das ribeiras.

- Quando hás-de ver que foste só motivo

Para falsas canções tão verdadeiras?

       David Mourão-Ferreira, Tempestade de Verão

  

Quando eu era pequenino

Quando eu era pequenino,

Gostava de ouvir contar

Histórias de princesinhas

Encantadas ao luar.

Havia então lá em casa

Uma criada velhinha,

A Sérgia contava histórias

- e que graça que ela tinha!

Lendas de reis e de fadas,

Inda me encheis a lembrança!

Que saudades de vós tenho,

ó meus contos de criança!

"Era uma vez..." As histórias

Começavam sempre assim;

E eu, então, sem me mexer,

Ouvia-as até ao fim.

Lembro-me ainda tão bem!

Os irmãos à minha beira,

Calados! E a boa Sérgia

Contava desta maneira:

"Era uma vez..." E depois,

Olhos fitos nos seus lábios,

Ouvia contos sem conta

De gigantes e de sábios".

"Era uma vez..." E, por fim,

A voz da Sérgia parava...

E assim como eu te contei

Era como ela contava.

Ai! que saudade, que pena,

Que nos meus olhos tu vês!

Eu sentava-me e ela, então,

Começava: - "Era uma vez..."

      Adolfo Simões Muller, O Príncipe Imaginário e Outros

      Contos Tradicionais Portugueses

 

Natal

Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

Em letras grandes e pretas,

Traz versos e historietas

E desenhos bonitinhos,

E traz retratos também

Dois bodos, bodos e bodos,

Em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

Mas quando será de todos?

      Sidónio Muralha, Poesias

  

A noite rimada

Pela serra ao luar

Ia um menino sozinho

Sem sono para se deitar.

Ia o menino a pensar

Por que seria ele só

Sem sono p'ra se deitar.

Ia o menino a pensar

Que há tanto por pensar

E a cidade a descansar.

E o menino a pensar

Por que seria ele só

Sem sono p'ra se deitar.

Quem dorme sem ter pensado

Deve ter sono emprestado

Não é sono bem ganhado.

Ia o menino a pensar

Como poder arranjar

Muita força p'ra pensar.

      José de Almada Negreiros, Poesia, Obras Completas

 

Voz do sangue

 Palpitam-me

Os sons do batuque

E os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem

Ó dançarino de Chicago

Ó negro servidor do South

Ó negro de África

Negros de todo o mundo

Eu junto ao vosso canto

A minha pobre voz

Os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho

Pelas emaranhadas áfricas

Do nosso Rumo

Eu vos sinto

Negros de todo o mundo

Eu vivo a vossa Dor

Meus irmãos.

      Agostinho Neto (Angola), Sagrada Esperança

 

O Sono do João

O João dorme... (Ó Maria,

Dize àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura,

E meio metro de largura:

Para o amigo orangotango,

O João seria ...um morango!

O João dorme... Que regalo!!

Deixá-lo dormir, deixá-lo!

Calai-vos, águas do moinho!

Ó mar, fala mais baixinho!...

E tu, Mãe! E tu, Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

      António Nobre,

 

Mulher

Chamam-te linda, chamam-te formosa,

Chamam-te bela, chamam-te gentil...

A rosa é linda, é bela, é graciosa,

Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,

A areia enfeita com encantos mil,

Não tem a graça, a curva luminosa

Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;

Da tua graça é pálida aguarela

Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,

E Deus responde em mim, por toda a parte:

Não chames bela – Chama-lhe Mulher!

       Rui de Noronha (Moçambique), Sonetos

  

Divertimento com sinais ortográficos

...

Em aberto, em suspenso

Fica tudo o que digo.

E também o que faço é reticente...

:

             Introduzimos, por vezes,

Frases nada agradáveis...

.

             Depois de mim maiúscula

             Ou espaço em branco

Contra o qual defendo os textos

,

Quando estou mal disposta

(E estou-o muitas vezes...)

Mudo o sentido às frases,

Complico tudo...

!

            Não abuses de mim!

?

             Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?

( )

Quem nos dera bem juntos

Sem grandes apartes metidos entre nós!

^

Dou guarida e afecto

A vogal que procure um tecto.

                               Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado

 

 Há palavras que nos beijam

 Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

       Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

 

Minuciosa formiga

Minuciosa formiga

Não tem que se lhe diga:

Leva a sua palhinha

Asinha, asinha.

Assim devera ser eu

E não esta cigarra

Que se põe a cantar

E me deita a perder.

Assim devera eu ser:

De patinhas no chão,

Formiguinha ao trabalho

E ao tostão.

Assim devera eu ser

Se não fora não querer.

       Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa

 

Lavoisier

Na poesia,

Natureza variável

Das palavras,

Nada se perde

Ou cria,

Tudo se transforma:

Cada poema, no seu perfil

Incerto

E caligráfico,

Já sonha outra forma.

       Carlos de Oliveira, Sobre o Lado Esquerdo

 

 Floriram por engano as rosas bravas

Floriram por engano as rosas bravas

No Inverno: veio o vento desfolhá-las...

Em que cismas, meu bem? Por que me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...

Onde vamos, alheio pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!

Quem as esparze - quanta flor! - do céu

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

       Camilo Pessanha, Clepsidra

 

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

       Fernando Pessoa, Obra Poética

 

Natal

Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

       Fernando Pessoa, Obra Poética

 

Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,

Tão triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto

Quando passo, sempre errante,

És para mim como um sonho,

Soa-me na alma distante.

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto a saudade mais perto.

       Fernando Pessoa, Poesias

 

Poema para a Lili

Levava eu um jarrinho

P'ra ir buscar vinho,

Levava um tostão

P'ra comprar pão.

E levava uma fita

Para ir bonita.

Correu atrás

De mim um rapaz:

Foi o jarro p'ra o chão,

Perdi o tostão,

Rasgou-se-me a fita...

Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,

Nem fosse buscar vinho,

Nem trouxesse uma fita

P'ra ir bonita,

Nem corresse atrás

De mim um rapaz

Para ver o que eu fazia,

Nada disto acontecia.

       Fernando Pessoa, Obras Completas IX

 

Que grande reinação

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,

Uns por verem rir os outros

E os outros sem ser por nada -

No comboio descendente

De Queluz à Cruz Quebrada...

 

No comboio descendente

Vinham todos à janela,

Uns calados para os outros

E os outros a dar-lhes trela -

No comboio descendente

Da Cruz Quebrada a Palmela...

 

No comboio descendente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E outros nem sim nem não

No comboio descendente

De Palmela a Portimão...

      Fernando Pessoa, Obras Completas

 

O que dizemos

O que dizemos,

Ninguém dirá

Como dizemos:

Palavra e gesto

Voz e acento

Calor e ritmo,

É tudo ímpar

É tudo novo

É tudo único.

Somos partículas

Inconfundíveis

Da Eternidade.

       Carlos Queirós, Breve Tratado de Não – Versificação

 

As fadas

"As fadas... eu creio nelas!

Umas são moças e belas,

Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, à beira do mar...

 

Algumas em fonte fria

Escondem-se enquanto é dia,

Saem só ao escurecer...

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder..."        

       Antero de Quental, As Fadas 

  

O palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.

            Por desertos, por sóis, por noite escura,

            Paladino do amor, busco anelante

            O palácio encantado da Ventura!

            Mas já desmaio, exausto e vacilante,

            Quebrada a espada já, rota a armadura...

            E eis que súbito o avisto, fulgurante

            Na sua pompa e aérea formosura!

            Com grandes golpes bato à porta e brado:

            Eu sou o Vagabundo, O Deserdado...

            Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

            Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...

            Mas dentro encontro só, cheio de dor,

           Silêncio e escuridão - e nada mais!

 Antero de Quental, Sonetos

 

Cantar de Amigo

À beira do rio fui dançar... Dançando

Me estava entretendo,

Muito a sós comigo,

Quando na outra margem, como se escondendo

Para que eu não visse que me estava olhando,

Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes

Certo se alegravam

De me ver dançar.

Fui largando as roupas que me embaraçavam,

Fui soltando as tranças...Olhos que me vistes,

Doces olhos tristes, não no ireis contar!

Que o amor é lume bem eu o sei...que logo

Que vi meu amigo

Por entre os salgueiros,

Melhor eu dançava, já não só comigo

Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,

Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que aos seus olhos tristes

Assim ofertava

Minha formosura!

Se não fora o rio que nos separava,

Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,

Nem eu me amostrara tão de mim segura...

       José Régio, Música Ligeira

 

Cavalgada

Já rebentei de correr

Sete cavalos a fio.

O primeiro era cinzento

Com sonhos de água sem fundo

E cor do norte o segundo

Com ferraduras de prata.

O terceiro era um mistério

E o quarto cor de agonia.

O quinto, de olhos em brasa,

Era só prata e espanto.

O sexto não se sabia

Se era cavalo, se vento.

Corria o sétimo tanto

Que nem a cor se lhe via.

Quanto mais ando mais meço

As distâncias que há em mim

Cada desejo é um fim

E cada fim um começo.

       Armindo Rodrigues, Antologia Poética para a Infância e a Juventude

  

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?

Natal de paz agora

Nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

Num mundo de oprimidos?

Natal de uma justiça

Roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

Em ser-se concebido,

Em de um ventre nascer-se,

Em por de amor sofrer-se,

Em de morte morrer-se,

E de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

Quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

Num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

Com gente que é traição,

Vil ódio, mesquinhez,

E até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Ou dos que olhando ao longe

Sonham de humana vida

Um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

E torturados são

Na crença de que os homens

Devem estender-se a mão?

       Jorge de Sena, Exorcismos

 

"Quem a tem..."

Não hei-de morrer sem saber

Qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser

Desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

E sempre a verdade vença,

Qual será ser livre aqui,

Não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,

É quase um crime viver.

Mas embora escondam tudo

E me queiram cego e mudo,

Não hei-de morrer sem saber

Qual a cor da liberdade.

      Jorge de Sena, Fidelidade

  

Fim

Quando eu morrer

Batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes

Façam estalar no ar chicotes

Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza:

A um morto nada se recusa,

E eu quero por força ir de burro...

       Mário de Sá-Carneiro, Poesias de Mário de Sá-Carneiro

  

Todos já vimos

Todos já vimos

Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão

Retratos de meninas e meninos

A defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos

Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão

Retratos de cadáveres de meninos e meninas

Que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!

E então?

       Fernando Sylvan (Timor), Primeiro Livro de Poesia (selecção de Sophia de

      Mello Breyner)

  

Fábula da fábula

Era uma vez

Uma fábula famosa,

Alimentícia e moralizadora.

Que, em verso e prosa,

Toda a gente

Inteligente,

Prudente

E sabedora repetia aos filhos,

Aos netos e aos bisnetos.

À base de uns insectos,

De que não vale a pena fixar o nome,

A fábula garantia

Que quem cantava

Morria

De fome.

E, realmente...

Simplesmente,

Enquanto a fábula contava,

Um demónio segredava

Ao ouvido secreto

De cada criatura

Que quem não cantava morria de fartura.

       Miguel Torga, Antologia Poética

 

História antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei,

Feio bicho, de resto:

Um cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.

E na verdade, assim acontecia,

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Ou não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.

       Miguel Torga, Antologia Poética

 

Instante

A cena é muda e breve:

Num lameiro,

Um cordeiro

A pastar ao de leve;

 

Embevecida, a mãe ovelha deixa de remoer;

E a vida

Pára também, a ver.

       Miguel Torga, Antologia Poética

 

Não saibas: imagina...

Deixa falar o mestre, e devaneia...

A velhice é que sabe, e apenas sabe

Que o mar não cabe

Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!

Inventa um alfabeto

De ilusões...

Um á-bê-cê secreto

Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela

De encontro a qualquer sol que te sorri!

Asas? Não são precisas:

Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia...

       Miguel Torga, Diário IX

 

Natal

Outro natal,

Outra comprida noite

De consoada

Fria,

Vazia,

Bonita só de ser imaginada.

Que fique dela, ao menos,

Mais um poema breve

Recitado

Pela neve

A cair, ao de leve,

No telhado.

       Miguel Torga, Antologia Poética

 

A galinha espertinha

Era uma vez uma galinha

Que entrou pela cozinha,

Onde havia uma panela,

Mas sem nada dentro dela.

Ouviu, então,

A voz fraquinha do patrão

Dizendo à cozinheira:

- "Não se arranja

Por aí uma canja?

Estou cheio de fome."

Pôs a galinha um ovo e disse: - Come."

E fugiu sem demora,

Antes que lhe chegasse a derradeira hora.

       António Manuel Couto Viana, Versos de Palmo e Meio

 

O cão

O cão

Que faz ão, ão

É bom amigo como os que o são!

 

É bom amigo, bom companheiro,

É valente, fiel, verdadeiro,

Leal, serviçal,

E tem bom coração

 

Que o diga o seu dono, se ele o tem ou não!

 

Quem vem de fora, a gente

E chega a casa, é o cão

Quem diz primeiro, todo prazenteiro,

Saltando e rindo

Contente,

E com olhos a brilhar de amor:

- "Ora seja bem vindo

O meu senhor"

 

O cão

Que faz ão, ão

É bom amigo como os que o são!       

       Afonso Lopes Vieira, Canto Infantil

 

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