
2001/2002
(Histórico: 2000/2001)
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Exposição dos Trabalhos |
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Agora que morreste Mãe
E só em mim te tenho
Sou mais que o meu tamanho
Porque sou tu também
Tuas mãos afagam as minhas mãos
De quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
Só contigo reparto o meu farnel
De quotidianos fardos e alegrias
Breves e desta brasa em chaga
Que é a tua ausência nos meus dias
Órfãos mas sempre ao colo desta mágoa
De não te ter de te ter sido esquiva
De não te ter nunca aberto as portas
Do meu ser de nunca te ter dado vivas
O que hoje já só são carícias mortas
Teresa Rita Lopes, Cicatriz
Dia
a
dia
noite
a
noite
pedra
a
pedra
palha
a
palha
tronco
a
tronco
cuspo
a
cuspo
gesto
a
gesto
passo
a
passo
flor
a
flor
se faz um ninho
um caminho
um amor
Teresa Rita Lopes, Cicatriz
Junto a um muro velho
A uma casa ruída
A velha amendoeira diz que não
À morte
E fica
De repente
Menina e noiva
Ao mesmo tempo.
O vento ri-se dela
Arranca-lhe as pétalas
- Mas são tantas que não se nota -
Escarnece-a:
- "És uma velha louca de véu e grinalda!"-
Para enxotar os insultos machistas do velho
Vento
Acudo-lhe com estes versos:
- "Não ligues! É inveja!
Estás tão linda assim de noiva, avozinha!"
Teresa Rita Lopes, Caminhos de Alcoutim
Quando te tinha
Mãe
Não sabia
Que um dia
Havia
De te perder
Nem pensava
Sequer
Que podia
Não te ter
Não parava
Para te saborear
Para te saber
Tão precisa
À minha vida
Tão preciosa
Não gozava
A alegria
De te saber
Mãe
Viva
Teresa
Rita Lopes, Cicatriz
La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.
Já não se escutam rumores:
A noite não tarda a vir.
Vamos embalar as flores?
As flores querem dormir!...
La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.
Cravos e lírios e rosas
Ao vento brando de outono,
Cravos e lírios e rosas
Vão-se fechando
De sono...
La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.
Vamos embalar as flores?
As flores querem dormir!...
Já não se escutam rumores:
E a noite não tarda a vir!
La-lá-la-ri-la-lá-la-lá.
Cecília Meireles (Brasil), Obras Completas
Parei
Espreitei
Entrei
Comprei
Saí
Subi
Abri
Sorri
Peguei
Coloquei
Atei
Ajeitei
Desci
Apareci
Rugi
E ri
Um leão
Que aflição!
Mas não...
É o João!
Maria Cândida Mendonça, O Livro do Faz-de-Conta
Um dia, o boi, o burro, o besouro,
O borrego, o búfalo e a borboleta
Repararam que os seus nomes
Começavam todos por b.
Disseram ao mesmo tempo:
Que bonito!
O bacalhau, o berbigão, o besugo
E o búzio, lá no mar,
Repararam que os seus nomes
Também começavam por b.
Disseram todos assim:
Que bonito!
Veio logo uma baleia de longe,
A gritar. Esperem,
Esperem aí por mim!
Maria Alberta Menéres, Um Peixe no Ar
O carvão é preto.
Quando arde é vermelho.
Qual é afinal
A cor do carvão?
Minha mãe, de noite
Não entendo nada:
Será que as cores nascem
Só de madrugada?
Minha mãe, quem sabe
Se a voz do amarelo
Não é doce apenas
Na imaginação?
Maria Alberta Menéres, Conversa com Versos
Comigo me desavim
Vejo-m'em grande perigo
Nam posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Antes qu'este mal tevesse,
De outra gente fugia,
Agora já fugiria
De mim, se de mim podesse.
Que cabo espero ou que fim
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Francisco Sá de Miranda (séc. XV), Cancioneiro Geral
Comigo me desavim:
Vejo-me em grande perigo!
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim!
Antes que este mal tivesse
Da outra gente fugia:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse!
Que cabo espero, ou que fim
Deste cuidado, que sigo
Pois trago a mim comigo
Tamanho inimigo em mim!
Francisco Sá de Miranda (séc. XV), Cancioneiro
Geral
A tudo se empresta aroma.
De tudo aroma se extrai.
O trigo que o homem sonha
Precede, vivo, o trigal.
Nasce o trigo e cresce o pão
Que no sonho se transforma.
Só com raízes no chão
Tem asas livres o homem.
António Luís Moita, Cidade sem Tempo
Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.
Adolfo Casais Monteiro, Noite Aberta aos Quatro Ventos
Caem,
Gordas, sonoras,
Monótonas pingas de chuva,
- Espaçadas -
E indolentes
Vão marcando uma toada:
Ping pang - ping pang,
As pingas
De chuva do Outono pardo.
Espapaçada
A terra mole absorve
As vagas de chuva densa
Que lenta vai caindo,
Em pingas grossas, sonoras.
E ao cair,
A chuva bate o compasso
Com o som dum contrabasso...
Ping...
Pang...
Ping...
Pang…
Adolfo Casais Monteiro, Poemas do Tempo Incerto
Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela, a menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
Caminho do mar...
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado
É mais que um poema
É a coisa mais linda
Que eu já vi passar.
Ah, por que estou tão sozinho
Ah, por que tudo é tão triste
Ah, a beleza existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha...
Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo
Se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor...
Vinicius de Moraes (Brasil), Antologia Poética
Glu!
Glu! Glu!
Abram alas pro Peru!
O Peru foi a passeio
Pensando que era pavão
Tico-Tico riu-se tanto
Que morreu de congestão.
O Peru dança de roda
Numa roda de carvão
Quando acaba fica tonto
De quase cair no chão.
O Peru se viu um dia
Nas águas do ribeirão
Foi-se olhando e dizendo
Que beleza de pavão!
Glu!
Glu! Glu!
Abram alas pro Peru!
Vinicius de Moraes, Antologia Poética
Litania para este Natal (1967)
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Numa casa de Hanói ontem bombardeada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
E anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Para nos vir pedir contas do nosso tempo
David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso
Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
David
Mourão-Ferreira, Cancioneiro do Natal
Vieram as aves negras em teu nome,
Secas folhas de plátano e de tília...
Amargamente, a fonte segredou-me
Tudo quanto eu sabia
Da sorte de Marília;
E que Dirceu
Poderei ser eu
- Tão infeliz! - nesta prisão sombria.
Ausente embora, continuo
A endereçar-te mil endechas.
Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,
Pela canção doentia
Coloração das minhas queixas.
Bárbara escrava?
Que me importava?
Além do amor, o meu amor quer melodia.
Cantei às flores do pinho, verde e vivo;
Cantei nas margens verdes das ribeiras.
- Quando hás-de ver que foste só motivo
Para falsas canções tão verdadeiras?
David Mourão-Ferreira, Tempestade de Verão
Quando eu era pequenino,
Gostava de ouvir contar
Histórias de princesinhas
Encantadas ao luar.
Havia então lá em casa
Uma criada velhinha,
A Sérgia contava histórias
- e que graça que ela tinha!
Lendas de reis e de fadas,
Inda me encheis a lembrança!
Que saudades de vós tenho,
ó meus contos de criança!
"Era uma vez..." As histórias
Começavam sempre assim;
E eu, então, sem me mexer,
Ouvia-as até ao fim.
Lembro-me ainda tão bem!
Os irmãos à minha beira,
Calados! E a boa Sérgia
Contava desta maneira:
"Era uma vez..." E depois,
Olhos fitos nos seus lábios,
Ouvia contos sem conta
De gigantes e de sábios".
"Era uma vez..." E, por fim,
A voz da Sérgia parava...
E assim como eu te contei
Era como ela contava.
Ai! que saudade, que pena,
Que nos meus olhos tu vês!
Eu sentava-me e ela, então,
Começava: - "Era uma vez..."
Adolfo Simões Muller, O Príncipe Imaginário e Outros
Contos Tradicionais Portugueses
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dois bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha, Poesias
Pela serra ao luar
Ia um menino sozinho
Sem sono para se deitar.
Ia o menino a pensar
Por que seria ele só
Sem sono p'ra se deitar.
Ia o menino a pensar
Que há tanto por pensar
E a cidade a descansar.
E o menino a pensar
Por que seria ele só
Sem sono p'ra se deitar.
Quem dorme sem ter pensado
Deve ter sono emprestado
Não é sono bem ganhado.
Ia o menino a pensar
Como poder arranjar
Muita força p'ra pensar.
José de Almada Negreiros, Poesia,
Obras Completas
Palpitam-me
Os sons do batuque
E os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
Ó dançarino de Chicago
Ó negro servidor do South
Ó negro de África
Negros de todo o mundo
Eu junto ao vosso canto
A minha pobre voz
Os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
Pelas emaranhadas áfricas
Do nosso Rumo
Eu vos sinto
Negros de todo o mundo
Eu vivo a vossa Dor
Meus irmãos.
Agostinho Neto (Angola), Sagrada Esperança
O João dorme... (Ó Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)
Tem só um palmo de altura,
E meio metro de largura:
Para o amigo orangotango,
O João seria ...um morango!
O João dorme... Que regalo!!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó mar, fala mais baixinho!...
E tu, Mãe! E tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...
António Nobre, Só
Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.
A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.
Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.
Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda a parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!
Rui de Noronha (Moçambique), Sonetos
Divertimento com sinais ortográficos
...
Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente...
:
Introduzimos, por vezes,
Frases nada agradáveis...
.
Depois de mim maiúscula
Ou espaço em branco
Contra o qual defendo os textos
,
Quando estou mal disposta
(E estou-o muitas vezes...)
Mudo o sentido às frases,
Complico tudo...
!
Não abuses de mim!
?
Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?
( )
Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!
^
Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.
Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill, No Reino da
Dinamarca
Minuciosa formiga
Não tem que se lhe diga:
Leva a sua palhinha
Asinha, asinha.
Assim devera ser eu
E não esta cigarra
Que se põe a cantar
E me deita a perder.
Assim devera eu ser:
De patinhas no chão,
Formiguinha ao trabalho
E ao tostão.
Assim devera eu ser
Se não fora não querer.
Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa
Na poesia,
Natureza variável
Das palavras,
Nada se perde
Ou cria,
Tudo se transforma:
Cada poema, no seu perfil
Incerto
E caligráfico,
Já sonha outra forma.
Carlos de Oliveira, Sobre o Lado Esquerdo
Floriram por engano as rosas bravas
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Camilo Pessanha, Clepsidra
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa, Obra Poética
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa, Obra Poética
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soa-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
Fernando Pessoa, Poesias
Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho,
Levava um tostão
P'ra comprar pão.
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
P'ra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
Fernando Pessoa, Obras Completas IX
No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...
No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...
No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...
Fernando Pessoa, Obras Completas
O que dizemos,
Ninguém dirá
Como dizemos:
Palavra e gesto
Voz e acento
Calor e ritmo,
É tudo ímpar
É tudo novo
É tudo único.
Somos partículas
Inconfundíveis
Da Eternidade.
Carlos Queirós, Breve Tratado de Não – Versificação
"As fadas... eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar...
Algumas em fonte fria
Escondem-se enquanto é dia,
Saem só ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder..."
Antero de Quental, As Fadas
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de
Quental, Sonetos
À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.
Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças...Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu o sei...que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.
Que Deus me perdoe, que aos seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura...
José Régio, Música Ligeira
Já rebentei de correr
Sete cavalos a fio.
O primeiro era cinzento
Com sonhos de água sem fundo
E cor do norte o segundo
Com ferraduras de prata.
O terceiro era um mistério
E o quarto cor de agonia.
O quinto, de olhos em brasa,
Era só prata e espanto.
O sexto não se sabia
Se era cavalo, se vento.
Corria o sétimo tanto
Que nem a cor se lhe via.
Quanto mais ando mais meço
As distâncias que há em mim
Cada desejo é um fim
E cada fim um começo.
Armindo Rodrigues, Antologia Poética para a Infância e a Juventude
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?
Jorge de Sena, Exorcismos
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Jorge de Sena, Fidelidade
Quando eu morrer
Batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes
Chamem palhaços e acrobatas.
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...
Mário de Sá-Carneiro, Poesias de Mário de Sá-Carneiro
Todos já vimos
Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
Retratos de meninas e meninos
A defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos
Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
Retratos de cadáveres de meninos e meninas
Que morreram a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos!
E então?
Fernando Sylvan (Timor), Primeiro Livro de Poesia (selecção de
Sophia de
Mello Breyner)
Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia e moralizadora.
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora repetia aos filhos,
Aos netos e aos bisnetos.
À base de uns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava morria de fartura.
Miguel Torga, Antologia Poética
Era uma vez, lá na Judeia, um rei,
Feio bicho, de resto:
Um cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E na verdade, assim acontecia,
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Ou não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga, Antologia Poética
A cena é muda e breve:
Num lameiro,
Um cordeiro
A pastar ao de leve;
Embevecida, a mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.
Miguel Torga, Antologia Poética
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.
Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...
Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...
Miguel Torga, Diário IX
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
Miguel Torga, Antologia Poética
Era uma vez uma galinha
Que entrou pela cozinha,
Onde havia uma panela,
Mas sem nada dentro dela.
Ouviu, então,
A voz fraquinha do patrão
Dizendo à cozinheira:
- "Não se arranja
Por aí uma canja?
Estou cheio de fome."
Pôs a galinha um ovo e disse: - Come."
E fugiu sem demora,
Antes que lhe chegasse a derradeira hora.
António Manuel Couto Viana, Versos de Palmo e Meio
O cão
Que faz ão, ão
É bom amigo como os que o são!
É bom amigo, bom companheiro,
É valente, fiel, verdadeiro,
Leal, serviçal,
E tem bom coração
Que o diga o seu dono, se ele o tem ou não!
Quem vem de fora, a gente
E chega a casa, é o cão
Quem diz primeiro, todo prazenteiro,
Saltando e rindo
Contente,
E com olhos a brilhar de amor:
- "Ora seja bem vindo
O meu senhor"
O cão
Que faz ão, ão
É bom amigo como os que o são!
Afonso Lopes Vieira, Canto Infantil